BIOGRAFIA - FÁTIMA CERQUEIRA
Nasci mineira e desde criança busco refúgios nos cantos. Tenho um olhar curvo...Influência das montanhas. Exagero na dor e recheio a vida com metáforas. Minha casa e janelas vivem abertas para as palavras.
faniquito
ainda que calada
vadio à beira dos abismos
voando
arremendo desenganos
na pele fresca
sem tino
assombrações
percorrem os quartos
titubeio
ave-maria
cheia das graças
aos poucos
sofro espasmos
perco a memória
insensatez
esta em mim
lateja
solfeja
delineia
um segredo
solto o verbo
é um parir
calejado
o verso
acontece
cresce com o toque
dos dedos no teclado
respiro aliviada
o que dói sai
esvai-se
sangue
entranhas
o grito se estende
sem fôlego
abaixo o facho
a dor foi-se
nasceu meu poema.
Meu bem te vi
vi-te
Não te vi
te vi
vi
um bem-te –vi
o que destroça
roça-me
môo o milho
sou ilha
encerro no vento
o tento
o canto
o pranto
e outros tantos
num galope
seduzi-te
desejei-te
como meu algoz
em ti pousei
a carne fresca
o olhar obstinado
engoliste o bom
de mim
cai em trapos
febres
delírios
sobrevivi
Não te vi
te vi
vi-te
como um bem-te –vi
contentamentos
Quem é essa dona
que habita nas ausências?
Estranha criatura
não se olha no espelho por puro desleixo.
Com dedos amarelos de tabaco
tece versos sem ritmos
arranca da noite a ternura.
Já procriou
lançou crias ao vento.
Guarda conchas em vidros de maionese
sonha com o mar...
O tempo afunda sua pele
que mais parece terra estiada.
No flanco do seu olhar
há faísca inquieta a borbulhar.
A vida malcontente é apenas esquisitice
capaz de lhe dar contentamento
no silêncio das palavras.
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